Segurança privada no Rio Grande do Norte perde 310 armas

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28/01/2021 – Especial - Aumento nos registros e porte de arma, Estande de tiro ATITUDE – Atirador Major Eduardo Franco - Foto: Alex Régis/ Tribuna do Norte

As empresas de segurança privada no Rio Grande do Norte perderam 310 armas nos últimos cinco anos, segundo dados da agência Fiquem Sabendo obtidos através da Lei de Acesso à Informação (LAI) junto à Polícia Federal. Roubadas, perdidas ou extraviadas, essas armas acabam em “mãos erradas” e facilitam o trabalho dos bandidos em ações criminosas, roubos, tentativas de assaltos e até mesmo homicídios. O número de armas perdidas corresponde a 9% de todas as armas registradas na PF pelas empresas do RN.

De acordo com os dados da Agência Fiquem Sabendo, o ano em que mais armas foram extraviadas foi em 2017, com 117 armas em todo o ano. O número caiu para 103 em 2018 e vem apresentando redução desde então: 46 em 2019, 30 em 2020 e 14 em 2021 (até 24 de agosto).

Para a atual coordenadora do Sindicato Intermunicipal dos Vigilantes do RN, Dalcilene Cabral, os roubos das armas têm acontecido em situações específicas, principalmente em locais em que os vigilantes não possuem estrutura de trabalho, o que facilita a ação dos bandidos. Ela explica ainda que nem todos os estabelecimentos permitem o uso da arma, como shoppings, hospitais, UPAs, entre outros.

“Temos enfrentado problemas de postos de serviços vulneráveis. Isso a gente cobra da empresa terceirizada, do contratante para que sejam feitas melhorias nos postos de serviço onde nossos trabalhadores atuam. Tem postos que são perigosos, tomados por matagal, já teve época de vigilante ser esfaqueado, ter a arma tomada. O maior impacto é esse, a insegurança nos postos de trabalho”, lamenta. Ela estima que apenas 30% das armas roubadas são recuperadas.

No mês passado, um criminoso foi baleado no peito, no ombro e no rosto ao tentar assaltar um vigilante no Hospital Rafael Fernandes, em Mossoró, Oeste potiguar. Segundo a Polícia Militar, o objetivo dos assaltantes seria tomar a arma do segurança, mas o profissional reagiu e atirou contra os criminosos.

O presidente do Sindicato das Empresas de Segurança Privada no RN (Sindesp-RN), Edmilson Pereira, aponta que a redução no número de armas perdidas nos últimos anos pode estar atribuída a dois fatores: o primeiro deles é que as empresas estão promovendo uma reciclagem e treinamentos anuais aos vigilantes e que os bandidos não estariam mais interessados nas armas dos vigilantes, procurando arsenais mais “pesados”.

“Atribuo a queda ao treinamento e capacitação dos nossos vigilantes através das empresas, treinamentos internos. Observamos ainda que os bandidos não se interessam mais por esse tipo de arma das empresas. Eles usam armamentos mais pesados”, explica. Por lei, esses trabalhadores só podem utilizar armas de calibre .38, bem como coletes a prova de balas. As armas, inclusive, são de propriedade das empresas.

Ainda de acordo com a  Sindicato Intermunicipal dos Vigilantes do RN, Dalcilene Cabral, o impacto do roubo dessas armas é sentido diretamente na segurança pública do Estado.

“A maioria dessas armas que são tomadas caem nas mãos de facções criminosas”, completa.

Brasil

Desde 2017, pelo menos 12.555 armas foram “extraviadas” de empresas de segurança privada em todo o país. Só neste ano, até 24 de agosto, a Polícia Federal já registrou 692 casos de roubo, furto e perda de armas de fogo que pertenciam a empresas do setor.

Segundo a PF, o arsenal das empresas de segurança privada soma 246.511 armas de fogo em todo o Brasil. São Paulo é o Estado com o maior número delas, com 59.086 armas.

Homicídios são causados por armas

Nove em cada dez vítimas de homicídios morrem por disparos de armas de fogo no Rio Grande do Norte. A estatística é da Coordenadoria de Informações Estatísticas e Análises Criminais (Coine/Sesed), que apontou que 89,0% dos homicídios no Estado até agosto de 2021 foram por armas.

Ao todo, segundo dados da Coine, até agosto de 2021 pelo menos 831 potiguares morreram vítimas de disparos de armas de fogo, de um total de 934 homicídios registrados em 2021.

Para o pesquisador Francisco Augusto Cruz, mestre em Ciências Sociais e pesquisador nas áreas de Violência, Segurança Pública e Sistema Prisional, as armas perdidas pelas empresas têm relação com o aumento da violência no Estado.

“As organizações criminosas no Rio Grande do Norte não têm, até onde sabemos, uma relação forte com o mercado nacional e internacional de armas. Grande parte do armamento utilizado pelo crime organizado no Rio Grande do Norte tem origem de armas perdidas ou tomadas em assaltos. A solução mais segura e resolutiva será a criação de um sistema de rastreamento de armas e munições. Mas ao que nos parece, esta questão não tem sido muito alvo da preocupação governamental”, explica.

>ENTREVISTA – FRANCISCO AUGUSTO CRUZ
cientista social

“Não existe política pública eficaz”

Nos últimos cinco anos, 310 armas de fogo usadas originalmente por empresas de segurança foram perdidas no Rio Grande do Norte.Estas armas são as que estão sendo usadas para os crimes do nosso dia a dia? Por quê este fenômeno segue acontecendo?

As armas utilizadas por criminosos ou organizações criminosas têm diversas origens. Como não existe uma política pública eficaz que consiga monitorar a circulação das armas e munições em território nacional, podemos afirmar que grande parte delas têm origem do contrabando internacional que chegam através das fronteiras aéreas, terrestres e marítimas, como também são frutos de roubos, furtos e latrocínios a agentes de segurança. Este cenário se perpetua no nosso país em razão da preocupação em promover o acesso sem que haja o rastreio eficaz pela Polícia Federal e pelas forças armadasCom o aumento das armas nas ruas, a tendência é que a criminalidade no geral cresça? 

A criminalidade precisa de armamento para executar suas atividades. As maiores organizações/facções criminosas não necessitam exclusivamente do roubo de armas, pois podem contar com o tráfico internacional. O roubo de armas de agentes de segurança é nestes casos, uma questão secundária. O narcotráfico precisa instrumentalizar o seu exército da melhor forma e não pode depender de armas de pequeno porte. Por outro lado, as organizações criminosas menores, sobretudo no interior do Brasil, dependem exclusivamente de armamentos frutos de assaltos, furtos e latrocínios. A facilitação de acesso a armas como política de segurança pública possibilitará que um número maior de armas caia na mão de criminosos e que a criminalidade em geral cresça

As recentes políticas de facilitação/acesso às armas de fogo no Brasil podem ter relação com esses dados?

Com o crescente acesso a armas de fogo, promovido pela gestão do Governo Federal e dos congressistas empenhados nesta área, temos observado um descompasso com uma política de controle de armas e munição. O resultado deste vazio é cada vez mais a chegada de armas legalizadas nas mãos de criminosos em razão de furtos e assaltos a residências e comércios que optaram pela compra de arma ou profissional armado para “garantir” a segurança.

É possível fazermos uma correlação entre o número de armas perdidas pelas empresas de segurança e do poder público e a violência no Rio Grande do Norte? Sim. As organizações criminosas no Rio Grande do Norte não têm, até onde sabemos, uma relação forte com o mercado nacional e internacional de armas. Grande parte do armamento utilizado pelo crime organizado no Rio Grande do Norte tem origem de armas perdidas ou tomadas em assaltos. A solução mais segura e resolutiva será a criação de um sistema de rastreamento de armas e munições. Mas ao que nos parece, esta questão não tem sido muito alvo da preocupação governamental.

// Fonte: Tribuna do Norte